Fé, arte e luta: Capela Cristo Operário conquista tombamento federal pelo Iphan

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Uma conquista histórica para a memória, a arte e a educação popular

É com imensa alegria e orgulho que compartilhamos uma grande notícia para a nossa comunidade e para a memória dos movimentos sociais e culturais do Brasil: o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) aprovou o tombamento em nível federal da Capela do Cristo Operário, do seu acervo de bens móveis e integrados e dos edifícios remanescentes da antiga Fábrica Unilabor — conjunto histórico que abriga as atividades da Escola Nacional Paulo Freire no bairro do Ipiranga, em São Paulo.

A decisão foi homologada na 114ª reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan, realizada em 22 de setembro de 2026, determinando a inscrição do bem nos Livros do Tombo Histórico e de Belas Artes. O tombamento federal tramitou sob o Processo nº 1490-T-02 (Processo SEI nº 01450.010592/2015-27) e consolida, em escala nacional, a preservação do espaço que já contava com proteção municipal pelo Conpresp (Resolução nº 11/2004) e estadual pelo Condephaat (Resolução SC nº 42/2004) desde 2004.

Um encontro singular entre fé, trabalho e vanguarda artística

A trajetória deste território começou em 1950, quando a Capela do Cristo Operário foi inaugurada a partir da adaptação de um antigo armazém industrial na Vila Brasília Machado. O projeto foi idealizado pelo padre dominicano Frei João Batista Pereira dos Santos, inspirado nos princípios do movimento Economia e Humanismo, articulando a ação pastoral à organização e ao apoio à comunidade operária.

Em 1954, o local tornou-se a sede da Unilabor, uma experiência pioneira de fábrica autogestionária de móveis, fundada por Frei João Batista em parceria com o designer e fotógrafo Geraldo de Barros. A Unilabor funcionava sob gestão comunitária dos próprios trabalhadores, alinhando a produção fabril ao design moderno de vanguarda.

A relevância do espaço também reside no seu acervo de 46 bens integrados e móveis criados por mestres do modernismo brasileiro:

  • Alfredo Volpi: autor dos painéis murais Cristo Operário, Sagrada Família e Santo Antônio, além dos vitrais com os quatro evangelistas.
  • Roberto Burle Marx: responsável pelo projeto paisagístico dos jardins que cercam a capela.
  • Yolanda Mohalyi: criadora dos murais do batistério (Anunciação, Pomba da Paz e Árvore da Vida).
  • Geraldo de Barros, Moussia Pinto Alves, Elisabeth Nobiling, Giuliana Segre Giorgi, Robert Tatin e Giandomenico de Marchis: autores de vitrais, esculturas, mobiliários e peças litúrgicas integradas ao edifício.

Educação popular e resistência: a tradição de um território vivo

A vocação deste espaço para a transformação social atravessa décadas de lutas. Entre 1973 e 1989, o local abrigou o Centro Pastoral Vergueiro (CPV), referência na defesa dos direitos humanos e no apoio às lutas populares durante a ditadura militar. Entre 2008 e 2013, sediou a Escola Dominicana de Teologia, alinhada à Teologia da Libertação.

Desde 2019, o espaço vive um novo capítulo com a Escola Nacional Paulo Freire. Inspirada no legado de Paulo Freire, nossa escola dá continuidade a essa caminhada de resistência promovendo formação técnica, cultural e política voltada à juventude e à classe trabalhadora.

Nas palavras do relator do processo no Iphan, Eduardo Pierroti Rossetti, o tombamento do conjunto é essencial para “fomentar o convívio livre e a liberdade crítica nas ações cotidianas, mas sobretudo para que […] seja possível também resgatar o que este bem representa como perspectiva de país”.

Este reconhecimento pelo Iphan reafirma que o nosso espaço não é uma relíquia trancada do passado, mas sim um patrimônio vivo, dinâmico e de portas abertas para a formação, a cultura e a emancipação social.

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