Escola Nacional Paulo Freire
Novembro de 2024
Há 61 anos atrás, em princípios de 1963, Paulo Freire iniciava a icônica experiência de alfabetização na cidade de Angicos, no interior do Rio Grande do Norte. As turmas colocadas em prática implementaram seu método de alfabetização de adultos em 40h, e se tornaram um importante símbolo da educação popular como impulsionadora da participação social. Isso porque, na época, somente pessoas alfabetizadas tinham direito ao voto, o que correspondia a pouco mais da metade da população brasileira.
A experiência, que poderia ter sido nacionalizada, impactando de forma drástica o número de eleitores no Brasil, foi brutalmente interrompida pelo golpe militar.
Paulo Freire, a educadora Elza Freire – sua companheira de vida e de profissão -, e toda a família, foram para o exílio, podendo retornar ao Brasil somente mais de 20 anos depois. Já se sabia o quanto a educação popular é perigosa para as elites do nosso país. Em sua trajetória enquanto educador e enquanto teórico, Paulo Freire sempre explicitou o caráter político das práticas educativas e de alfabetização e seu potencial de transformação de estruturas sociais.
Durante toda a sua vida, Freire se colocou ao lado do povo oprimido, deixou seu exemplo de um profundo compromisso com a transformação das estruturas arcaicas de nosso país através da emancipação humana, tendo a educação popular como uma prática da liberdade, como é dito no título de seu primeiro livro, publicado em 1967. O educador também foi exemplo de coerência, nos deixando um legado não apenas teórico, mas também de sua prática pedagógica em todos os lugares por onde passou no Brasil e no mundo.
Mais de meio século depois da experiência de Angicos, no bairro do Ipiranga, na cidade de São Paulo, iniciava a experiência da Escola Nacional Paulo Freire (ENPF) no local do antigo Complexo Vergueiro, espaço da Ordem dos Dominicanos da Igreja Católica, e que também é parte da memória da esquerda paulistana, tendo abrigado a primeira fábrica auto-gestionada de São Paulo, a Unilabor, e também o Centro Pastoral Vergueiro (CPV), um centro de documentação, arquivo e pesquisa do movimento operário e de esquerda, importante pólo de resistência durante a ditadura.
Nossa escola começou a se organizar no primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, e desde então, em conjunto com os movimentos populares e organizações sociais, enfrentamos a calamidade da pandemia de covid-19 e o genocídio do povo brasileiro; vimos resistindo ao avanço da agenda golpista e de retirada de dignidade do nosso povo, ajudamos em 2022 a eleger Lula rumo à reconstrução nacional e seguimos na luta para a implementação do programa eleito nas urnas.
Celebramos os 5 anos da ENPF tendo cada vez mais convicção da arma da educação popular para a transformação da realidade, e sabendo que essa transformação virá, necessariamente, pelas mãos do povo, ao exigir sua participação e protagonismo nos rumos da reconstrução do Brasil. Temos na metodologia dos Agentes Populares, nos Cursos de Realidade Brasileira, no impulsionamento da cultura popular e nos processos de Formação de Formadores nossa contribuição para manter vivo o exemplo de Angicos na formação do povo para o exercício do poder!
Inspirados por Paulo Freire, temos que a vocação principal de nossa escola é ser um espaço de formação e de elaboração através da ciência popular e da sistematização de experiências. Em nossa caminhada, construímos a ENPF como um grande laboratório de experiências organizativas da juventude e da classe trabalhadora, e foi através da vivência, experimentação e estudo, que hoje afirmamos a nossa missão de elaboração de metodologias e processos de educação popular visando o estímulo à organização do povo. Nesta publicação, será possível encontrar um pouco do que pudemos acumular sobre os temas da educação popular, a teologia da libertação, a juventude e a realidade brasileira.
A revista Ti.jo.lo se propõe a reunir as sínteses dos aprendizados que tivemos nesses anos de atuação. No prefácio desta edição comemorativa, destacamos depoimentos de algumas agentes populares de alimentação formadas pela escola, rememorando aprendizados e vivências que esses cursos nos proporcionaram. O artigo que abre da revista, “Uma escola em movimento: a experiência da Escola Nacional Paulo Freire”, escrito coletivamente pelo setor pedagógico da escola, em 2023, traz a síntese mais atualizada da experiência da escola, sua história, construção, eixos de atuação e desafios.
Na sequência, apresentamos dois textos com os acúmulos consolidados pela escola em duas temáticas centrais para seu trabalho: a educação popular e o trabalho de base, por um lado, e a juventude, por outro. O texto que os sucede homenageia uma importante figura para a história e fundação da Escola Nacional Paulo Freire, Frei João Xerri, morto pela pandemia de covid 19, mas que permanece presente entre nós com seu exemplo inquebrantável. Nessa continuidade, partilhamos algumas reflexões sobre Paulo Freire e a Teologia da Libertação nos marcos da I Turma do Curso Paulo Freire, escritas pelo querido amigo e companheiro Thomaz Jensen, sempre presente na construção cotidiana da escola desde o início.
Logo, apresentamos algumas sínteses pedagógicas que expressam parte da nossa concepção de educação popular nos textos “Os tempos pedagógicos na Escola Nacional Paulo Freire” e “Agentes Populares de Alimentação: uma tecnologia social para a organização do povo”, frutos das reflexões suscitadas pelo Curso Paulo Freire e o Curso de Agentes Populares de Alimentação. Como último texto desta revista, temos “Paulo Freire e a nossa escola: primeiras reflexões sobre a sua práxis”, de 2021, escrito pela então Coordenação Político Pedagógica (CPP) da escola, que aborda o processo de nomeação da Escola Nacional Paulo Freire, um resgate biográfico de seu patrono, e as concepções que embasaram a sua construção nessa fase inicial.
Por fim, é com imensa alegria que fechamos a nossa publicação com um posfácio escrito pelo grande amigo e também educador da escola, Sérgio Haddad, peça fundamental para orientar e contribuir no aprofundamento da escola sobre a vida e obra de Paulo Freire.
Em seu aniversário de 5 anos de existência, a Escola Nacional Paulo Freire renova seu compromisso com o povo brasileiro e assume a responsabilidade colocada pelo nosso momento histórico de avançar no protagonismo popular e na democracia rumo à construção de um Projeto Popular para o Brasil! Assim, nos comprometemos com a continuidade do legado de Paulo Freire: Faremos Angicos de Novo!


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